16.12.05
3.12.05
Turn and face the strange...
Mudanças para este lado do equador (ou do meridiano de Greenwich). Este blog aqui está permanentemente paralisado. Vai continuar on-line para que os nossos textos já publicados continuem disponíveis. Textos novos, no entanto, a partir de agora em dois blogs separados: o da Heloisa é o Petite A Go Go e o meu é o Music Is My Hot Hot Sex. Interpertem vocês essa ruptura do jeitp que quiserem, mas não, não adianta dar em cima da Helô, porque até o momento, nós não terminamos.
Falou, espero os senhores e senhoras no meu blog, e a Helô espera vocês no dela.
1.12.05
FUNK CARIOCA - FEIO MAS TÁ NA MODA(*)
“Sou funkeiro, sou da paz, vou para o baile para dançarÔ lê lê, ô lá lá, sou funkeiro e quero mais ver o funk arrepiarEu sonhava que um dia viria o resultado que esse ritmo do povo então seria respeitadoolhar sem preconceito de classe, raça ou corque o funk é brasileiro e todos têm que dar valor”
Rap do Funkeiro – DJ Marlboro, Juca e Mosca
Foi só depois que a personagem grã-fina, Raíssa, da novela “América” da rede Globo aparece num baile funk na favela rebolando o “popozão” que os pequenos burgueses começaram a reparar nesse peculiar ritmo carioca. Foi só depois que a cantora M.I.A. e o DJ Diplo colocaram músicas de Deise Tigrona no palco do TIM Festival (originalmente de “jazz”) que o batidão ganhou status cult. Agora é bacana ouvir, requebrar e gostar desse estilo musical que há poucos anos era considerado um ritmo marginal - tanto a música em si, quanto seus apreciadores.
Em “Batidão – Uma história do funk”, do jornalista Sílivo Essinger (autor também de “Punk: anarquia planetária e a cena brasileira”) traça a o desenvolvimento desse gênero musical desde as suas origens. Enquanto o Brasil exportava a Bossa-Nova e a Tropicália, casais dançavam nos salões do subúrbio carioca onde ecoavam o funk norte-americano de James Brown e versões abrasileiradas, que misturavam o samba e o rock, tocadas por banda como Devaneios, Lafayette e Brasil Show. É nos anos 70 que ocorre o que se pode considerar a gênese desse ritmo eletrizante.
A obra de Essinger instiga o leitor a saber mais e mais sobre o funk, trazendo no livro-reportagem, não apenas pesquisas sobre a história, mas muitas entrevistas com personagens que foram fundamentais para que o estilo se tornasse uma subcultura brasileira.
Uma delas é Fernando Luís da Matta, mais conhecido como DJ Marlboro. É ainda moleque que o carioca teve os primeiros contatos com o soul e a discothèque, ao som de Earth Wind & Fire, Michael Jackson e Marvin Gaye – só para citar alguns. Era final dos anos 70 quando se tornou DJ nos bailes fazendo mixagens de disco-funk. Enquanto isso, nos EUA explodia uma nova revolução nos guetos de negros, o Hip-Hop, que viria influenciar profundamente o rumo desse funk “made in Brazil”. Com danças, denúncias sociais (“uma assustadora crônica da vida nos guetos negros”), mixagens e MC´s (mestres de cerimônia dos bailes, a figura que agitava o local) não demorou muito para a novidade se espalhar e chegar nos morros cariocas, onde houve uma grande identificação.
Aos poucos, o código de vestimenta dos freqüentadores dos bailes conduzidos por Marlboro e outros DJ´s passou a ser restrito. Segundo Essinger, não se podia ir mais com a roupa do dia-dia, mas com “calça, camisa e sapatos finos, às vezes um blazer, quem sabe alguns cordões. E para as mulheres, os melhores vestidos”. As festas, para os apreciadores, se elevavam a rituais. Coreografias e refrões pornográficos por cima das letras americanas começam a chamar atenção do pessoal do “asfalto” (pra quem mora na cidade), como o antropólogo Hermano Vianna, que mais tarde trataria o “fenômeno” em sua tese “O mundo funk carioca”, lançada em 1988.
As melodias das músicas em inglês ganharam novos sentidos e a galera foi adaptando o que ouvia. Foi como conta DJ Marlboro, com a que ele chama de primeira música de funk carioca como conhecemos hoje, “Melo da mulher feia”. ”Tinha um refrão no baile, o pessoal gritava ‘mulher feia chupa pau e dá o cu’. Aí pensei, vou botar mulher feia cheira mal como urubu’”, relembra o DJ. As letras ganharam popularidade, servindo de inspiração para os novos artistas do funck carioca.
Mas é no final de 90, inicio dos anos 00 que o ritmo ganha mais destaque na mídia. Depois de Marlboro ter participais especiais nos programas da Xuxa com seu inesquecível “Rap da Felicidade” (quem não se lembra de “eu só quero é ser feliz/ andar tranquilamente na favela onde eu nasci/ e poder me orgulhar/ e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”?), o pessoal da classe média, “em busca de emoções” começa a subir o morro para freqüentar os bailes funks. Essinger acrescenta que “não era raro ver carros de luxo na entrada da favela, cheia de garotões rumo aos bailes. E para o terror dos pais, tampouco era incomum ver as meninas branquinhas namorando os funkeiros pretinhos das comunidades”.
É também nesse cenário que começa a violência nos bailes. A favela sempre esteve associada à brutalidade, à prostituição social, a ponta do iceberg dos problemas da sociedade. De início, eram apenas brigas “normais” para um lugar com muita gente, depois, a violência em suas formas mais extremas, em conseqüência das rixas entre as “gangues” do morro. E foi com essa característica que a mídia identificou os bailes, estampando em jornais títulos sensacionalistas, denegrindo assim a imagem do funk carioca, e que, dificilmente será dissociada.
Talvez possamos dizer que o verão de 00/01 tenha sido o verão do funk. É nesse ano que estoura na mídia o grupo Bonde do Tigrão com hits tocando nas rádios do norte ao sul do país. “Tchutchuca”, “O baile todo” e “Cerol na mão” também eram destaques nos programas de TV. Depois de uma baixa, o funk volta para a mídia, mas dessa vez pelas mãos (e vozes) de Tati-Quebra Barraco, e não faltou lugar para Mr. Catra, Mc Serginho e o dançarino Lacraia.
O mundo do funk carioca continua a produzir sucessos - que passam longe da grande mídia- entre os habitantes do subúrbio. A possibilidade de realização dessas novas músicas talvez se deva em grande parte à revolução tecnológica na área da informática e sua democratização de uso. As coletâneas contendo os hits do morro são piratas e gravadas de forma caseira.
“A combinação bailes/programas de rádio/CDs piratas cuidou de manter uma espécie de star system do funk que jamais teria sido possível dentro do esquema da grande indústria – afinal, ao contrário do que acontece com ela, as músicas já são sucesso antes de tocar no rádio, e não por causa dele”, afirma Essinger ao contextualizar com a atualidade, nos quais os sucessos das rádios e TVs são resultado de jabás e negociações.
Após a leitura de “Batidão”, pode-se perceber que o funk carioca, como muitos outros estilos musicais, vai muito além da fronteira da música. É o reflexo de uma sociedade, funcionando como válvula de escape social - assim como no punk inglês. Através do comportamento da juventude no campo social diagnostica-se a organização da sociedade, assim como as relações culturais, como vimos num estilo que parece genuinamente brasileiro como o funk.
Mais pancadão...
- http://www.multirio.rj.gov.br/seculo21/mapa.asp?cod_chave=1&letra – Link Século XXI em que traz artigos sobre Rap e Funk
- Abolando os anos 90: Funk e Hip-Hop: globalização, violência e estilo cultural. Org. Michael Herschman, ed. Rocco. – Lançado em 97, o livro reúne artigos sobre o movimento.
-“Sou feia mas to na moda”- Documentário de Denise Garcia que foca em especial, as mulheres do movimento, como as funkeiras Deise da Injeção, Vanessinha Pikachú, Tati Quebra-Barraco e diversos "bondes" de meninas.
(*) O título faz referência à música de Tati-Quebra Barraco “Sou feia mas tô na moda”
**Resenha que fiz para a disciplina de Cultura Brasileira (pra facul de moda!!)
Rap do Funkeiro – DJ Marlboro, Juca e Mosca
Foi só depois que a personagem grã-fina, Raíssa, da novela “América” da rede Globo aparece num baile funk na favela rebolando o “popozão” que os pequenos burgueses começaram a reparar nesse peculiar ritmo carioca. Foi só depois que a cantora M.I.A. e o DJ Diplo colocaram músicas de Deise Tigrona no palco do TIM Festival (originalmente de “jazz”) que o batidão ganhou status cult. Agora é bacana ouvir, requebrar e gostar desse estilo musical que há poucos anos era considerado um ritmo marginal - tanto a música em si, quanto seus apreciadores.
Em “Batidão – Uma história do funk”, do jornalista Sílivo Essinger (autor também de “Punk: anarquia planetária e a cena brasileira”) traça a o desenvolvimento desse gênero musical desde as suas origens. Enquanto o Brasil exportava a Bossa-Nova e a Tropicália, casais dançavam nos salões do subúrbio carioca onde ecoavam o funk norte-americano de James Brown e versões abrasileiradas, que misturavam o samba e o rock, tocadas por banda como Devaneios, Lafayette e Brasil Show. É nos anos 70 que ocorre o que se pode considerar a gênese desse ritmo eletrizante.
A obra de Essinger instiga o leitor a saber mais e mais sobre o funk, trazendo no livro-reportagem, não apenas pesquisas sobre a história, mas muitas entrevistas com personagens que foram fundamentais para que o estilo se tornasse uma subcultura brasileira.
Uma delas é Fernando Luís da Matta, mais conhecido como DJ Marlboro. É ainda moleque que o carioca teve os primeiros contatos com o soul e a discothèque, ao som de Earth Wind & Fire, Michael Jackson e Marvin Gaye – só para citar alguns. Era final dos anos 70 quando se tornou DJ nos bailes fazendo mixagens de disco-funk. Enquanto isso, nos EUA explodia uma nova revolução nos guetos de negros, o Hip-Hop, que viria influenciar profundamente o rumo desse funk “made in Brazil”. Com danças, denúncias sociais (“uma assustadora crônica da vida nos guetos negros”), mixagens e MC´s (mestres de cerimônia dos bailes, a figura que agitava o local) não demorou muito para a novidade se espalhar e chegar nos morros cariocas, onde houve uma grande identificação.
Aos poucos, o código de vestimenta dos freqüentadores dos bailes conduzidos por Marlboro e outros DJ´s passou a ser restrito. Segundo Essinger, não se podia ir mais com a roupa do dia-dia, mas com “calça, camisa e sapatos finos, às vezes um blazer, quem sabe alguns cordões. E para as mulheres, os melhores vestidos”. As festas, para os apreciadores, se elevavam a rituais. Coreografias e refrões pornográficos por cima das letras americanas começam a chamar atenção do pessoal do “asfalto” (pra quem mora na cidade), como o antropólogo Hermano Vianna, que mais tarde trataria o “fenômeno” em sua tese “O mundo funk carioca”, lançada em 1988.
As melodias das músicas em inglês ganharam novos sentidos e a galera foi adaptando o que ouvia. Foi como conta DJ Marlboro, com a que ele chama de primeira música de funk carioca como conhecemos hoje, “Melo da mulher feia”. ”Tinha um refrão no baile, o pessoal gritava ‘mulher feia chupa pau e dá o cu’. Aí pensei, vou botar mulher feia cheira mal como urubu’”, relembra o DJ. As letras ganharam popularidade, servindo de inspiração para os novos artistas do funck carioca.
Mas é no final de 90, inicio dos anos 00 que o ritmo ganha mais destaque na mídia. Depois de Marlboro ter participais especiais nos programas da Xuxa com seu inesquecível “Rap da Felicidade” (quem não se lembra de “eu só quero é ser feliz/ andar tranquilamente na favela onde eu nasci/ e poder me orgulhar/ e ter a consciência que o pobre tem seu lugar”?), o pessoal da classe média, “em busca de emoções” começa a subir o morro para freqüentar os bailes funks. Essinger acrescenta que “não era raro ver carros de luxo na entrada da favela, cheia de garotões rumo aos bailes. E para o terror dos pais, tampouco era incomum ver as meninas branquinhas namorando os funkeiros pretinhos das comunidades”.
É também nesse cenário que começa a violência nos bailes. A favela sempre esteve associada à brutalidade, à prostituição social, a ponta do iceberg dos problemas da sociedade. De início, eram apenas brigas “normais” para um lugar com muita gente, depois, a violência em suas formas mais extremas, em conseqüência das rixas entre as “gangues” do morro. E foi com essa característica que a mídia identificou os bailes, estampando em jornais títulos sensacionalistas, denegrindo assim a imagem do funk carioca, e que, dificilmente será dissociada.
Talvez possamos dizer que o verão de 00/01 tenha sido o verão do funk. É nesse ano que estoura na mídia o grupo Bonde do Tigrão com hits tocando nas rádios do norte ao sul do país. “Tchutchuca”, “O baile todo” e “Cerol na mão” também eram destaques nos programas de TV. Depois de uma baixa, o funk volta para a mídia, mas dessa vez pelas mãos (e vozes) de Tati-Quebra Barraco, e não faltou lugar para Mr. Catra, Mc Serginho e o dançarino Lacraia.
O mundo do funk carioca continua a produzir sucessos - que passam longe da grande mídia- entre os habitantes do subúrbio. A possibilidade de realização dessas novas músicas talvez se deva em grande parte à revolução tecnológica na área da informática e sua democratização de uso. As coletâneas contendo os hits do morro são piratas e gravadas de forma caseira.
“A combinação bailes/programas de rádio/CDs piratas cuidou de manter uma espécie de star system do funk que jamais teria sido possível dentro do esquema da grande indústria – afinal, ao contrário do que acontece com ela, as músicas já são sucesso antes de tocar no rádio, e não por causa dele”, afirma Essinger ao contextualizar com a atualidade, nos quais os sucessos das rádios e TVs são resultado de jabás e negociações.
Após a leitura de “Batidão”, pode-se perceber que o funk carioca, como muitos outros estilos musicais, vai muito além da fronteira da música. É o reflexo de uma sociedade, funcionando como válvula de escape social - assim como no punk inglês. Através do comportamento da juventude no campo social diagnostica-se a organização da sociedade, assim como as relações culturais, como vimos num estilo que parece genuinamente brasileiro como o funk.
Mais pancadão...
- http://www.multirio.rj.gov.br/seculo21/mapa.asp?cod_chave=1&letra – Link Século XXI em que traz artigos sobre Rap e Funk
- Abolando os anos 90: Funk e Hip-Hop: globalização, violência e estilo cultural. Org. Michael Herschman, ed. Rocco. – Lançado em 97, o livro reúne artigos sobre o movimento.
-“Sou feia mas to na moda”- Documentário de Denise Garcia que foca em especial, as mulheres do movimento, como as funkeiras Deise da Injeção, Vanessinha Pikachú, Tati Quebra-Barraco e diversos "bondes" de meninas.
(*) O título faz referência à música de Tati-Quebra Barraco “Sou feia mas tô na moda”
**Resenha que fiz para a disciplina de Cultura Brasileira (pra facul de moda!!)
30.11.05
My baby just cares for me
My baby don't care for shows
My baby don't care for clothes
My baby just cares for me
My baby don't care for cars and races
My baby don't care for high-tone places
Liz Taylor is not his style
And even Lana Turner's smile
Is somethin' he can't see
My baby don't care who knows
My baby just cares for me
Baby, my baby don't care for shows
And he don't even care for clothes
He cares for me
My baby don't care
For cars and races
My baby don't care for
He don't care for high-tone places
Liz Taylor is not his style
And even Liberace's smile
Is something he can't see
Is something he can't see
I wonder what's wrong with baby
My baby just cares for
My baby just cares for
My baby just cares for me
(Nina Simone)
3.11.05
Cansou não
É bem produzido. Muito bem produzido. Estranho, né? Todo mundo acostumado com aquelas demos no Trama Virtual, gravadas na melhor crueza roqueira e o álbum em si sai essa beleza de “sujeira” eletrônica. Não teria melhor estréia para o Cansei de Ser Sexy.
Além dos mimos (CD virgem com o selo Trama Virtual acompanhando o disco, EP vendido apenas nos shows), não é pra qualquer um fazer um negócio desse tamanho. Claro, tem a mão do gênio (pode chamar de gênio, né?) Adriano Cintra por tudo que é canto, seja na composição ou na produção do álbum. Mas é um disco de meninas para entrar na lista de melhores discos de meninas ever.
O CSS é um desses abençoados híbridos dos anos 00, mesclando o carcomido róque que corre nas veias de qualquer retardado que se interesse o suficiente por música com a eletrônica oitentista re-filtrada por uma sujeira pop que só o róque explica. Desde a levada disco + o cantofalado de “Lets Make Love And Listen Death From Above” até o ska/country (decidam-se!) de “Alcohol”, o CSS não rejeita nada que seja urbano. É um dos melhores exemplos dessa metrópole esquizofrênica e cruel que é São Paulo, pintando o coração da máquina com cores Moog/Cassiotone e hedonismo auto-consciente.
Na frenética e lenta mudança de século (as coisas simplesmente não viraram do nada, estamos nos preparando para o “terceiro milênio” desde os anos 80), o CSS exemplifica como as regras um dia estabelecidas só existem para ser quebradas. Off-line e on-line, levaram o lema neolítco Do It Yourself até onde dava. Shows sem critério e divulgação via fotolog dividem o mesmo espaço na imagem pública da banda. Da mesma forma, a bateria não se importa em ser eletrônica ou analógica, o sintetizador ocupa o mesmo posto da guitarra, e o ciborgue em que nos transformamos é explicitado sem remorsos.
Na pureza da teoria do caos o disco abre com “Fuck Off Is Not The Only Thing You Have To Show”. Convenhamos, todos vocês que estão espalhados pela internet, gastando o potencial exibindo um novo profile do orkut: vaisifuder é tudo que se têm pra mostrar? Podemos aprender com cada cousa que publicamos? Convenhamos, de tudo que apreendemos até essa hora, o mais importante foi a possibilidade da auto-publicação. Provavelmente nenhuma geração tenha dado mais a cara à tapa que a nossa.
“Alala”, garagem disfarçada de eletrônica, avisa: “You´re so cool... Can I be your friend?”, como se fosse um scrap/mensagem de fotolog questionando a possibilidade de integrar a pessoa ao seu círculo virtual. Já “Let´s Make Love...” é um rap de amor (até porque substitui o “transar/trepar/foder” pelo romântico “fazer amor”), onde o sexo é simples e necessário, a realização final do cada vez mais comum relacionamento virtual à distância. Theremin, teclado intermitente e guitarrinha de funk branco formam uma equação que fecha a ponte entre o hip-hop clássico e a noite inglesa.
Com ou sem Mu (que também tem uma música pra herdeira mais piranha dos Hilton), “Meeting Paris Hilton” faz Depeche Mode roqueiro de refrão grudento, talvez o mais chiclete do disco. Da “verdade crua” dos tablóides multimídia, o CSS arranca a verdade construída e faz com que a bitch diga sim.
“Alcohol” brinca de “Ob-La-Di Ob-La-Da”pelo simples prazer de ser feliz, enquanto “Bezzi”, menos roqueira, fecha como registro oficial a catapulta à fama que o DJ Alexandre Bezzi recebeu com a homenagem. “Off The Hook” é Ultrsom puro (um dos projetos de Adriano Cintra), um Blondie que depende menos do carisma da Debbie Harry e se joga na força da composição.
“Art Bitch” ataca o circuito muderno de arte com a mesma classe que Caco Galhardo fazia nos seus momentos mais inspirados. Tensa e suja, mostra as guitarras como quem mostra os dentes em desaprovação. “Acho Um Pouco Bom”, outro momento Ultrasom, faz lenta aquele pedido que um dia o próprio corpo faz depois de semanas de acabação: hoje não é dia de sair de casa. Entre ouvir música na tranqüilidade do lar e o suicídio da dignidade somada à falência dos órgãos internos, a primeira opção sempre parece mais acolhedora. Especialmente climática, com efeitos aparecendo e sumindo, “Computer Heat” é o calor dos circuitos em ebulição, como se um cooler desligado levasse ao derretimento das calotas polares.
Madonna anos 90/00 com um riff circular que pode ser tanto influenciado por Sabbath quanto por White Stripes (qual a diferença?), “Music Is My Hot Hot Sex” é um hino, é pra tatuar. É uma dissertação sobre o logo da nova Bizz, digamos assim. Já o rancor de “This Month, Day 10” escorre pelo refrão (“I´ll be rude, only with you”), embasado por uma linha de baixo firme e embalado por uhús.
Matias disse que era pro CSS tocar pra 30 mil leitoras da Capricho no sambódromo. E o mesmo Matias, quando editor da saudosa Play, sugeriu colocar a Kelly Key na capa da edição de música. Lá ele falava que “Baba” estava esperando um DJ esperto preparar um remix que tirasse as pistas de dança da dvisão cool/farofa. Não sei se alguém chegou a ler aquilo, mas tá aqui a resposta pro pedido dele. “Superafim” mescla vocoder com piadas internas, pegada pop com pista de dança de inferninho. Pronto pra tocar na Jovem Pan, na Vila Olímpia e no Milo Garage. Não chega a ser um “Hey Ya”, mas pode promover interação.
A baladinha com gosto de sonho “Poney Honey Money” fecha tudo entre os barulhinhos e as guitarras mais nítidas do disco. Boa noite, podemos dormir. A festa acabou, e todos um dia vão para casa, com ou sem dor de cabeça, com ou sem o sol a pino. Mas em horas tudo recomeça, porque essa festa que insistem que a gente chame de vida não acaba tão cedo.
1.11.05
Grande como o Brasil
Já venceu o prazo de colocar essa resenha no ar, então vamo logo que eu tô com pressa (só pra citar o Sieber):
Selo Instituto na Coleta Seletiva
Você conhece o Instituto? Pois deveria, e o CD “Selo Instituto na Coleta Seletiva” é uma excelente oportunidade para isso. Encartado na revista Outracoisa (aquela do Lobão), por R$ 13,90 chega com o atraso de um mês a coletânea especial selecionada pelo coletivo. O Instituto são quatro cidadãos (os produtores Tejo, Ganjaman e Rica Amabis, mais o designer Rodrigo Silveira) empenhados em fazer música brasileira. O que não significa Brazil for export, aquele Brasil carnavalesco que vende bem no exterior. Além do selo do primeiro disco assinado pelo coletivo (Coleção Nacional), as produções do Instituto estão espalhadas pelos discos de inúmeros artistas que fazem, da mesma forma, música brasileira que não é “brasilianista”.
O falecido rapper Sabotage abre e fecha o disco. Com todo o crédito de rua que um morador de favela do Canão pode ter, Sabotage refaz as origens da música afro-brasileira e avisa que “O nego não pára no tempo” em “Cabeça de Nego”, versão remixada com flautas, cuícas e aquele flow macio. “Aracnídeo”, um drum and bass pesado faz lembrar que o jungle também é rap (só que britânico).
O coletivo tem um apreço especial pelos graves, audível por todo o disco. Ainda no hip-hop, o Mamelo Sound System traça as conexões Instituto-Anticon, mostrando que o Brazil também faz rap inovador, orgânico/eletrônico, tanto em “Gorila Urbano” quanto no remix de Rica Amabis para “Falsidade”. A ponte jamaicana é construída em “Liri Sista”, de Lurdez da Luz e Alexandre Basa, um ragga com a voz inteligente de Lurdez da trilha do filme “Narradores de Javé”.
Enquanto De Leve ecoa seu rap malandro sobre o samba-pancadão de “Flu do Mundo”, o mesmo Flu, ex-baixista do De Falla, brinca de pós-bossa em “Também”. E por aí seguem os ritmos: no dub experto e quente de Lúcio Maia e Jorge Du Peixe para a trilha do filme “Amarelo Manga”, no pós-manguebit sambado do Bonsucesso Samba Clube e no “cabecismo AM” do Cidadão Instigado, o Instituto ajuda a recriar um Brasil moderno mas não artificial, onde a música tem papel central e se manifesta em diversos matizes.
"Vai babar geral"
Entrevista velha, de mais de meia hora, com o BNegão, quando ele veio aqui em junho, pra tocar no Cabaré do Filo. Ia pro projeto on-line da minha classe, mas nem rolou. Então, pra não pegar poeira virtual, vai aí:
Its Fascinatin – No seu último disco você transita por uma infinidade de etilos musicais – ragga, rap, dub, jazz, hardcore, funk. Como é lidar com tantas influências?
B Negão – Tudo isso aí é verdade, verdade minha, verdade para quem está tocando junto. Coisas que eu ouço muito há muito tempo, a parada já está no sangue mesmo. O disco começou como solo, eu fui juntando uma banda e hoje somos um grupo, tanto que o próximo disco vai sair como Seletores de Freqüência – a banda em si, não só eu. Aí vem as influências de todo mundo: o Kalunga (baixo) teve a primeira banda de dub do Rio. O Pedrão (trumpete) é um jazz men animal, tocava com o Manifesto 021, que era a melhor bande de funk setentão do Rio, tocou com o Gérson King Combo também. Tanto o Pedrinho (bateria) quanto o Kalunga tocaram no Cabeça, clássica banda underground de hardcore do Rio. O Gabriel Muzak (guitarra) é fenomenal trabalhando o samba, o disco solo dele, Bossa Nômade, é do caralho, um samba mais torto, meio Tom Zé. Um dos mehores compositores da nova geração, disparado. O Paulão era vocalista do Gangrena Gasosa, outra banda clássica, tem o vocal gutural mais clássico do Brasil. Sepultura, Ratos de Porão, até o Mike Patton é fã do cara. O Rodrigues foi o DJ mais influente do Rio de Janeiro, não na parte técnica, mas na versatilidade, em termos de idéia e produção. Ele foi DJ dos SpeedFreaks, que era ele, o Speed e o Black Alien, lá por 93, e gravaram uma fita em quatro canais que vale até hoje. Foi o primeiro a tocar ragga no Rio, uma influência grande pra galera do Quinto Andar, esse pessoal mais novo. Ou seja, é só macaco velho, pessoal cascudo, fazendo a parada, e deu no que deu.
Its Fascinatin – Por que o disco demorou para sair?
B Negão – Não foi um disco que a gente ficou lapidando, colocando aquele contratempo, procurando aquele timbre. Na verdade foram dois motivos: Um pela minha notória enrolação. Eu vou devagarinho, o processo é lento. Como o disco foi feito na camaradagem total, porque o pessoal que fez acreditava na parada, todo mundo 100%, do Marcos Suzano e As Gatas ao Sabotage e ao Instituto inteiro. Eu só tinha a grana pra pagar a pizza, né? Na primeira semana a gente gravou seis bases. Aí eu falei: “Caramba, esse disco vai sair rapidinho”. Só que a outra semana só foi acontecer oito meses depois. Além da enrolação minha, eu pensava “Pô, neguinho tá trabalhando de graça, vou deixar pra fazer de novo quando não for nenhum abuso, nenhum absurdo o cara ir lá no estúdio”. Todo mundo tem o seu tempo e foi fazendo no seu tempo. O pessoal do Instituto as vezes pegava pra fazer as mixagens direto, as vezes mixava no intervalo entre um trabalho e outro, tinha uma meia hora e ia lá e trabalhava no disco. E graças a Deus saiu um disco atemporal, na medida do possível, um trabalho maravilhoso. A Folha de S. Paulo elegeu como um dos melhores de 2003, vários sites também falaram a mesma coisa. Saiu no começo deste ano na Rádio França Internacional, a principal rádio de world music do mundo, uma eleição dos melhores discos de 2004, e o radialista inglês colocou o Enxugando o Gelo como segundo melhor disco do mundo em 2004. A gente já tava indo bem na Europa e isso aí catapultou de vez a parada. A gente vai tocar num festival na Dinamarca, grandíssimo, no mesmo dia que Fantômas, Foo Fighters, e também vão ter shows do Brain Wilson, Sonic Youth, Black Sabbath com o Ozzy no primeiro dia, e a gente vai estar lá representando o Brasil, amarradão.
Its Fascinatin – E o disco novo ?
B Negão – Tem umas duas músicas na pré-produção, deve ter umas cinco músicas amarradas já, e idéias para várias outras. Em dois ensaios saíram umas vinte músicas, a gente está lapidando elas. Uma coisa que ajuda muito os Seletores é que todos ali são compositores de mão cheia. Sai tanta música que não cabe tudo nos Seletores, não dá vazão pra tudo.
Its Fascinatin – E como é pegar um disco complexo como o Enxugando o Gelo e transpor isso para o show?
B Negão – Na verdade isso é bem tranqüilo. Mais do que esteticamente a música, é o espírito dela ali. Então a gente toca com coração. O show está potente, energético pra caramba. Assim como o disco, o show está sendo considerado um dos melhores. A gente tocou no Planeta Atlântida em Florianópolis, que é monstruoso, muita gente, bandas grande como Rappa, Titãs, Racionais, todo mundo, e vários jornais votaram na gente como o melhor show, ou entre os três melhores do festival. É a mesma coisa lá fora; a gente tava fazendo um show na Alemanha e depois do show é que nos chamaram para esse festival na Dinamarca. Se deixarem a gente tocar, a gente faz a nossa parte. Por exemplo, o Cabaré do Filo é maneiríssimo, uma estrutura profissional voltada pra música, não pra mídia, enquanto outros festivais só dão atenção pro jabá, os caras com 100 mil cópias vendidas. Por isso a gente ta se dando bem no exterior, lá fora só a música já basta, não precisa entrar no esquemão. Tem jabá á fora também, mas a gente consegue fazer um show em Londres pra 10 mil pessoas, um público local, não a comunidade brasileira. Aqui no Brasil é tudo 8 ou 80: ou o esquemão ou a morte. Pra viver de música, sem fazer concessões, infelizmente, o melhor caminho tem sido o aeroporto. Não é o certo, tem coisas maneiríssimas lá de fora que o pessoal lá de fora conhece melhor que o pessoal aqui de dentro. Tom Zé é um deles, os gringos vêm pra cá e acham incrível o fato de o Tom Zé não tocar nas rádios. A indústria fonográfica está exilando os artistas.
Its Fascinatin – Mas quanto ao público, quem quer não vai atrás?
B Negão – Pouca gente, cara. Eu mesmo não tenho gravador de CD, imagina o neguinho na favela, sem grana nem pra pagar a conta de luz. Claro, melhorou muito esse lance de inclusão digital, mas ainda não é o ideal. A gente tá indo lá pra fora por causa da internet. Não foi lançado o disco internacionalmente, mas ele é distribuído em copyleft na internet, pode baixar inteiro do site. Eu quero viver de música, e tou vivendo, graças a Deus, em meio a vários terremotos. Eu não só gosto de música, essa é a minha missão. Porém rola uma “popotização” do mal, citando o Didi Mocó. A vida de um cara do terceiro mundo normalmente é desumana. Tá muito longe da democracia. O cara mora num lugar afastado do seu trabalho, vai pra lá, passa por vários perrengues pra chegar lá. Chega e trabalha horas, depois é outra guerra pra voltar pra casa. Chega no seu lar, come, quando não tá tão cansado faz sexo, e dorme porque no outro dia é outra luta. Quando o cara vai parar pra poder procurar os interesses dele? Seria ótimo pra humanidade se cada um tivesse tempo de ir atrás de suas próprias coisas. Não só para a música, mas para cada um poder se entender como ser humano. Só que é mais fácil pra quem tá no comando se for assim, difícil. Você não tem tempo pra ouvir você mesmo. Só vê o que tá na mídia: liga o rádio e vai recebendo, fim de semana assiste o Faustão. 90% da cultura brasileira fica exilada no próprio país. O rádio é o principal meio de comunicação para a música, ainda mais que a TV. É uma concessão pública, mas os donos agem como se as rádios fossem deles. Existem diversas regras que essas concessões exigem, como tocar artistas da cidade onde a rádio está, e que são ignoradas, sem contar o caixa 2 que é animal. Tem aí uma lei contra o jabá, que se passar talvez dê uma melhorada. Enquanto isso a rádio despeja o conteúdo de sempre e o cara não desconfia que todas as músicas tocando nas grandes rádios são pagas pra estarem lá. Mas a gente não desanima: é a minha missão fazer música.
Its Fascinatin – As letras do Enxugando o Gelo parecem recados, pedindo para cada um olhar para si mesmo, e ao mesmo tempo não são melosas, não são aquela auto-ajuda como a do Paulo Coelho. Você acha que o mundo tem conserto?
B Negão – Sinceramente mesmo, geral, o mundo tem conserto, mas ele vai precisar acabar e começar de novo, não tenho dúvida nenhuma disso. O que nego chama de apocalipse em todas as religiões, na raiz de todas as religiões, até porque a hipocrisia tem dominado muitas delas, não é o final do mundo, vai explodir e acabar tudo. O planeta vai acabar daqui a alguns bilhões de anos, quando não agüentar mais e babar geral. Mas o modo de vida dos seres humanos, o que eles fizeram para si mesmos, é algo que vai se auto-aniquilar. A humanidade está se matando e ninguém vê que continua no mesmo caminho, indo pular do abismo. Montaram esse sistema onde o deus é a grana e todos vão nessa: quem não tem grana quer ter, quem tem quer segurar, e deixaram o mundo nesse estado. Quem pensa de forma diferente tem que fazer o presente agora, tornar o mundo menos pior. Quando eu era mais moleque eu tinha umas idéias tipo “o mundo vai explodir, então foda-se. Vou viver de qualquer jeito e esperar o fim”. Mas isso tá errado, se você quiser um novo mundo tem que fazer agora. Se você acha que o cara que sai roubando e matando um filho da puta, você também não pode faze isso no seu dia a dia. Se você ver o dinheiro do maluco caindo aí na sua frente, você não vai pegar a grana pra você mesmo, falar “me dei bem”, vai devolver o dinheiro pro cara. Se alguém tá precisando de ajuda e você pode ajudar você vai ajudar, por aí vai. Estamos todos no mesmo barco. Quando eu entendi isso eu comecei a falar a para de irmão. Somos todos irmãos, está todo mundo ligado. Vários irmãos se juntam e vão em frente, mas outros escravizam a sua mente. Por mais terrível que possa parecer, o Paulo Maluf é meu irmão, fazendo merda, mas é meu irmão. Estamos no mesmo mundo, somos filhos da mesma energia, chame de Deus ou do que for, tem uma energia que faz essa ligação. E pra nego entender que o mundo é coletivo e não individual, só depois que acabar tudo. Eu costumo falar que “os dias passam com a velocidade de um pavio de bomba aceso” por isso, se você perceber não é uma viagem, não é falar que “não, você era mais novo, agora é só impressão de rapidez”. Não, o tempo é cada vez mais curto, cara mais velho, cara mais novo, todo mundo diz isso. Então vai babar geral, e a galera vai ter que reconstruir as coisas com essa idéia de comunidade e de evolução mesmo. Eu tenho identificação com várias religiões, não tenho uma específica. Me identifico muito com o espiritismo, com o budismo, com o taoísmo, que não é nem religião, é uma filosofia. Independente disso tudo, tenho vários amigos que são ateus, céticos, porém eles estão muito mais perto da parada certa do que os outros caras que falam que acreditam em Deus, andam com cruz dependurada no pescoço. Se você faz a prática, a atitude certa, luta contra os problemas do mundo, como faz esse pessoal dos movimentos anti-globalização, tá certo. Se você acha que o mundo tá ruim, tem que dizer mesmo, senão vão achar que não tem nenhuma voz dissonante.
Its Fascinatin – Você acha que você está conseguindo despertar consciências?
B Negão – Quando eu fiz o disco, fiz cumprindo a missão de falar. No mínimo alguém vai ver que tem mais alguém que pensa parecido, o que tem acontecido bastante, graças a Deus. Ao mesmo tempo, fiz sem expectativa nenhuma. Uma parada muito interessante que tem no budismo, que eu uso na minha vida há anos, é essa não expectativa. Você faz as coisas sem esperar aplausos ou vaias, aquela é a sua missão e você tem que fazê-la, do melhor jeito possível e ponto. Acabou aquilo ali, parte pra outra parada. Eu não tenho medo de estar pregando para os convertidos, nada disso. Não tenho mais medo de nada. Estou andando nesse mundo aqui evoluindo, consciência de que eu sou um espírito no planeta, nesse corpo, e daqui a pouco não estou mais aqui. O maior medo que as pessoas tem, o medo da morte, graças a Deus ele já passou pra mim. Eu fico bolado com algumas religiões que reservam uma vaga no céu, vinculam vida eterna à grana. Não adianta, você vai ter vida eterna, seja ela boa ou ruim. É o ponto primordial da coisa, entender que nunca é tarde pra começar. Nego pode estar com noventa anos e se quiser mudar, muda. É nisso que eu acredito – mais do que acredito, tenho certeza. Vivo isso na prática há anos. Têm acontecido coisas maravilhosas comigo, tanto espiritualmente quanto profissionalmente. Tenho tocado no mundo todo, com mestres que eu admiro muito. Fiz a parada com As Gatas, fiz outra parada com o Nelson Sargento, cantei com o Public Enemy em Portugal no sohw dos caras – eles são a banda que mais me influenciou na vida, fiquei emocionadaço. Toquei com o baterista do Fela Kuti, o Tony Allen, outra influência monstruosa pra mim, fizemos três músicas juntos. Coisas assim, que aconteceram sem expectativa. Quando você tem alguma expectativa, faz uma moldura pro quadro, se limita ali. Sem expectativa você tira essa moldura – o que tiver que acontecer vai acontecer. Você vai muito mais longe do que poderia imaginar nossa vã filosofia. Tem um monte de coisas que eu só vou perceber depois que aconteceram, aí eu agradeço muito e vejo que estou no meio que cambaleando no caminho certo. O que eu falo nas letras é o que eu falo pra mim também. A diferença nas letras é que antes eu falava : “vocês fazem isso ou aquilo”. Agora não tem “vocês” em nada: somos nós. Cada um faz sua parada de acordo com seu grau de evolução, de acordo com o que recebeu da vida. Se alguém acha que o material é o que importa na vida, ele vai fazer, e quem sou eu pra dizer que ele está errado? Um dia ele aprende, pode ser nessa encarnação ou na outra. Não posso chegar e falar pro cara “você tem que”, tem nada, cada um no seu tempo. É o famoso livre-arbítrio. Estamos todos no mesmo barco, então eu falo nós. Eu não sou o cara mais desenvolvido, essas coisas. Uma época eu me enganei com isso, mas percebi que não sou eu o desenvolvido, são os outros que estão marcando. Eu chamo o cara e mostro pra ele que se ele tiver uma visão mais abrangente do mundo vai ser melhor para todas as paradas. Essas doenças do fim do século (depressão, stress), é tudo culpa de neguinho que fica mais ligado no material. Você corre e depois nem sabe porque está correndo tanto.
Its Fascinatin – No Rio o hip-hop tem influência de ragga, drum’n’bass, dub, diferentemente do rap de São Paulo, mais sisudo e fechado. O que você acha que motivou essas diferenças?
B Negão – Tem aquela coisa: quem só ouve rap vai acabar fazendo algo parecido com aquilo que ouve. Fica difícil criar algo novo, faz aquela parada que já ta pronta. Uma outra coisa que faz uma diferença grande no Rio é o fato de que o Rio de Janeiro não tem uma “indústria” do rap. Em São Paulo você pode viver de rap, no Rio não. Num show só com artistas nacionais em São Paulo, você consegue juntar 50 mil pessoas, e vai encher mesmo. No Rio de Janeiro não tem rádios que toquem rap como em São Paulo. Se você fizer um show no Rio você coloca mil pessoas, com sorte. Fora o Marcelo (D2), que eu considero uma coisa mais mainstream, ele já ta na máquina, naquela parada “capetalista”, de jabá e coisa e tal. Mas aí não conta, é uma máquina que vai grana, marketing... No mundo real você vai juntar mil pessoas, mil e quinhentas, duas mil no máximo. Se der dois mil, nego vai ficar espantado.
22.10.05
Pra tatuar
Cansei de Ser Sexy roubado do Matiash:
From all the drugs the one I like more is music
From all the junks the one I need more is music
From all the boys the one I take home is music
From all the ladies the one I kiss is music (muah!)
Music is my boyfriend
Music is my girlfriend
Music is my dead end
Music is my imaginary friend
Music is my brother
Music is my great-grand-daughter
Music is my sister
Music is my favorite mistress
From all the shit the one I gotta buy is music
From all the jobs the one I choose is music
From all the drinks the one I get drunk is music
From all the bitches the one I wannabe is music
Music is my beach house
Music is my hometown
Music is my kingsize bed
Music is my hot hot bath
Music is my hot hot sex
Music is my back rub
Music is where I'd like you to touch
